“É preciso estar sempre embriagado.
Aí está: eis aúnica questão.
Para não sentirem o fardo horrível
do Tempo que verga e inclina para
a terra, é preciso que se embriaguem
sem descanço.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude,
a escolher. Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um
palácio,sobre a relva verde de um
fosso, na solidão morna do quarto,
a embriaguez diminuir ou desaparecer
quando você acordar, pergunte ao
vento, à vaga, à estrela, ao pássaro,
ao relógio, a tudo que flui, a tudo que
geme, a tudo que gira, a tudo que canta,
a tudo que fala, pergunte que horas são;
e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de
embriagar-se! Para não serem os escravos
martirizados do Tempo, embriaguem-se;
embriaguem-se sem descanso”.
Com vinho, poesia ou virtude, a escolher
Embriaguem-se (tradução Jorge Pontual)
Charles Baudelaire (1821-1867)
poeta e teórico da arte francês, considerado um dos precursores do Simbolismo